Tem uma frase que vive quietinha na cabeça de muitas mulheres que chegam até mim. Nem sempre é dita em voz alta, mas eu a escuto por baixo de tudo o que trazem para dentro do consultório:

Eu deveria dar conta sozinha.

Talvez você já tenha pensado isso também. Você construiu uma vida. Deixou seu país, aprendeu a se virar num idioma que não era o seu, se reinventou numa cidade que não te conhecia. Você segurou sua família à distância através de fusos horários, de ligações de vídeo que nunca são suficientes, de culpas que não têm nome certo. Trabalha, cuida, ama, gerencia… e ainda assim, algo não está bem. Tem um cansaço que o sono não resolve, uma tristeza que não tem causa única, uma ansiedade que te acompanha de cômodo em cômodo. Mesmo assim, você hesita. Porque pedir ajuda parece admitir que toda aquela força — a competência, a resiliência, a mulher que dá conta — era, de alguma forma, uma performance. Que por baixo dela, você não está bem de verdade.

Esse pensamento: “eu deveria dar conta sozinha”, não é uma falha pessoal. É uma ferida cultural e merece ser olhado com honestidade.

De Onde Vem Essa Voz?

A vergonha em torno de buscar ajuda psicológica não é aleatória. Ela é ensinada.

Pesquisas mostram consistentemente que o, estigma tanto social quanto internalizado, é uma das principais barreiras que impedem mulheres de acessar cuidados de saúde mental, especialmente entre mulheres imigrantes e latinas (Ojeda & Bergstresser, 2008). Para mulheres latino-americanas especificamente, frameworks culturais como o marianismo – a expectativa profundamente enraizada de que mulheres devem ser abnegadas, resistentes e humildes – moldam a forma como o sofrimento emocional é entendido e expresso. Conceitos como aguantarse (a capacidade de suportar) e controlarse (conter os sentimentos difíceis) não são apresentados como estratégias de enfrentamento, mas como virtudes (Añez et al., 2005, citado em Heredia et al., 2023).

A mensagem é antiga e corre fundo: mulher de verdade aguenta. Buscar ajuda, dentro dessa lógica, é o oposto de aguentar. É uma espécie de fracasso. Uma revisão sistemática sobre barreiras ao cuidado de saúde mental para mulheres imigrantes na Europa encontrou que estigma, crenças culturais e a ausência de serviços sensíveis às questões de gênero foram os obstáculos mais relatados e que essas barreiras não são apenas individuais, mas estão enraizadas em “sistemas de opressão que se cruzam” e que as mulheres imigrantes navegam simultaneamente (Guerrero et al., 2023). Em outras palavras: a vergonha que você sente sobre precisar de apoio não é só sua. Ela foi construída por sistemas maiores do que você, e colocada em você muito antes de você perceber que estava lá.

O Paradoxo da Mulher Forte

Aqui tem algo que pode ser desconfortável de ler: as próprias qualidades que te ajudaram a sobreviver – a autossuficiência, a capacidade de continuar, a recusa de desabar – também podem te impedir de receber o que você realmente precisa. Estudos sobre busca de ajuda entre mulheres imigrantes mostram que um forte senso de resiliência e autossuficiência é frequentemente citado como uma barreira ao cuidado de saúde mental, não apenas como uma força (Martinez et al., 2020). Mulheres que aprenderam a depender de si mesmas porque não havia outra opção, ou porque pedir parecia perigoso, envergonhante ou fraco, frequentemente continuam com esse padrão muito depois que as circunstâncias que o criaram já mudaram.

A força era real. O custo dela também é real. E o que a psicologia entende sobre esse custo é: experiências emocionais não processadas não desaparecem. Elas vão para algum lugar. Pesquisas sobre a relação entre mulheres, vergonha e sofrimento psicológico mostram consistentemente que quando sentimentos difíceis são habitualmente suprimidos (controlarse, aguantarse) eles tendem a se manifestar no corpo, nos relacionamentos, num esgotamento que resiste a qualquer explicação (Brown, 2006; Acar et al., 2025). Talvez você não consiga nomear o que está errado. Seu corpo, porém, está registrando tudo.

O que é terapia de verdade (e o que não é)

Uma das razões pelas quais a vergonha em torno de buscar ajuda persiste é que muitas pessoas têm uma imagem distorcida do que é terapia. Imaginam que precisarão confessar seus piores pensamentos para um estranho que vai julgá-las, ou que serão tratadas como alguém quebrado, ou — talvez o maior medo — que vão descobrir que o problema é culpa delas mesmas.

Nada disso é o que a boa terapia faz. Na psicanálise relacional, o próprio relacionamento terapêutico é entendido como o principal veículo de cura. O psicanalista Wilfred Bion descreveu o papel do terapeuta como o de um continente: uma presença capaz de receber os sentimentos brutos, difíceis e muitas vezes impensáveis que uma pessoa não consegue carregar sozinha, e devolvê-los transformados como algo compreensível, suportável, trabalhável (Bion, 1962). Winnicott chamou isso de holding environment, ou ambiente de sustentação: um espaço psicológico confiável e seguro no qual uma pessoa pode finalmente parar de performar e simplesmente ser (Winnicott, 1960).

Nenhuma dessas abordagens te pede para ser quebrada. Pedem apenas que você seja humana.

Buscar terapia não é evidência de que você falhou em lidar com a vida. É evidência de que você está pronta para parar de lidar sozinha — o que, se você parar para pensar, é uma das coisas mais corajosas que alguém pode fazer.

A Realidade Interseccional

Se você é uma mulher brasileira ou latina imigrante vivendo na Austrália, há algo que vale nomear aqui, diretamente. As barreiras que você enfrenta para buscar apoio em saúde mental não são só internas – são estruturais e culturais. Pesquisas sobre comunidades latinas e saúde mental mostram que mulheres dessas origens têm significativamente mais chances do que suas contrapartes brancas e nascidas localmente de relatar preocupações relacionadas ao estigma como barreiras ao cuidado e que essas preocupações são moldadas pelos frameworks culturais sobre gênero, lealdade familiar e contenção emocional com os quais cresceram (Ojeda & Bergstresser, 2008).

Soma-se a isso a experiência muito específica da imigração: o luto de partir, o esgotamento de se adaptar, a solidão de estar entre dois mundos, e a tarefa quase impossível de explicar tudo isso para alguém que nunca viveu por dentro. Pesquisas sobre barreiras ao cuidado de saúde mental para mulheres imigrantes encontraram que a ausência de serviços culturalmente sintonizados e em língua materna era um obstáculo estrutural primário – não uma preferência, mas uma necessidade clínica (Guerrero et al., 2023).

Fazer terapia em português, com alguém que entende como sua cultura funciona por dentro, não é luxo. É parte fundamental do que faz a terapia realmente funcionar.

E Se Você Reformulasse a Pergunta?

Você tem perguntado: Eu deveria dar conta sozinha disso?

Que tal perguntar outra coisa: O que significaria finalmente não ter mais que dar conta sozinha?

Como seria ter um espaço, genuinamente seguro, onde você não está gerenciando, não está performando, não está sendo forte por ninguém? Onde você não é quem segura todo mundo, mas, por uma hora por semana, é você quem é sustentada? A vergonha que impede mulheres de buscar ajuda não é uma verdade moral. É uma resposta aprendida, moldada pela cultura, pelo gênero, pela experiência específica de migração e deslocamento. Ela pode ser examinada. Pode ser compreendida. Pode mudar.

Você já sobreviveu a coisas que teriam quebrado muitas pessoas, não há dúvidas sobre isso.  A questão é se apenas sobreviver é tudo o que você quer ou se você está pronta para viver de forma mais plena do que isso.

Você Não Precisa Esperar Tudo Desmoronar

Um dos mitos mais persistentes sobre terapia é que você precisa estar em crise para merecer ajuda, que as coisas precisam ficar gravemente ruins antes de ser aceitável pedir apoio. Essa, também, é uma construção cultural e prejudicial. Pesquisas sobre a busca de tratamento entre mulheres mostram que muitas esperam até que as dificuldades se tornem graves antes de procurar cuidados, precisamente porque internalizaram a mensagem de que a ajuda só é justificada no extremo do sofrimento (Solbakken et al., 2026). Nesse ponto, o trabalho é mais difícil e a recuperação demora mais.

Não é preciso bater numa parede para ter permissão para buscar apoio. Sentir-se persistentemente cansada, desconectada, ansiosa, ou como se tivesse perdido o fio de si mesma, é suficiente. Sentir que está cumprindo os movimentos da própria vida sem realmente habitá-la é suficiente. Sentir que não consegue explicar direito o que está errado, mas saber que algo está, é suficiente. Querer mais para si mesma – mais clareza, mais leveza, mais presença na própria vida – já é suficiente.


Um Pensamento Final

A mulher que finalmente começa terapia não é aquela que desistiu. É aquela que decidiu que sua vida interior importa, que o que acontece dentro dela – o luto, o esgotamento, a tristeza sem nome, a raiva que ela engoliu por anos – merece atenção.Isso não é fraqueza. É um dos atos mais significativos de autorrespeito que existem.

Se algo aqui ressoou ou se você se reconheceu na frase: “Eu deveria dar conta sozinha”, pense que talvez você já tenha dado conta por tempo suficiente e que existe outro caminho.

 

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Referências

Acar, et al. (2025). The intersection of shame, gender, and resilience. Psychology of Woman Journal, 6(4), 1–9. https://journals.kmanpub.com/index.php/psywoman

Añez, L. M., et al. (2005). Conducting culturally sensitive psychiatric evaluations with Latinos. Psychiatric Services, 56(6), 684–686. [Citado em Heredia et al., 2023]

Bion, W. R. (1962). Learning from Experience. Heinemann.

Brown, B. (2006). Shame resilience theory: A grounded theory study on women and shame. Families in Society, 87(1), 43–52. https://doi.org/10.1606/1044-3894.3483

Guerrero, N., et al. (2023). Barriers and facilitators to seeking and accessing mental health support in primary care and the community among female migrants in Europe: A “feminisms” systematic review. BMC Women’s Health. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10523615/

Heredia, D., et al. (2023). VALOR: Cultural considerations when assessing Central American immigrant women in behavioral health settings. PMC. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10373987/

Martinez, A. B., et al. (2020). Filipino help-seeking for mental health problems and associated barriers and facilitators: A systematic review. International Journal of Mental Health Systems, 14, 64. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7578164/

Ojeda, V. D., & Bergstresser, S. M. (2008). Gender, race-ethnicity, and psychosocial barriers to mental health care: An examination of perceptions and attitudes among adults reporting unmet need. Journal of Health and Social Behavior, 49(3), 317–334.

Solbakken, et al. (2026). Ranking determinants of therapy dropout among women. Psychology of Woman Journal, 7(1), 1–11. https://journals.kmanpub.com/index.php/psywoman

Winnicott, D. W. (1960). The theory of the parent-infant relationship. International Journal of Psycho-Analysis, 41, 585–595.